quarta-feira, 18 de maio de 2022

O amor

atenção lhe rouba quando ainda è o nada

de repente explode em chamas e queima

sugando - lhe ao centro do fogo cuja labareda

 queima o espírito queima a vida maldição

da qual não se liberta não antes que  nada sobre

para ser queimado pelo fogo que renova pelo bem

ou pelo mal indiferente pelo pedido do individuo

a quem o amor não importa se vive ou se morre 
 

Arte

arrebate as correntes da mentira com a expressão

lírica da pena em paginas outrora brancas

mostra aos olhos dos que vierem de pè em cima

do palco com potência de vida a realidade que nos

retorna  distorça o ar com emissão de ondas atiradas

 por cordas ou pancadas de instrumentos divinos

de música aos deuses a verdade o castelo mais  sólido

e forte sò construído por tijolos da verdade que juntos

um do outro se unem à força e ao poder o que è bom

fortifica e constrói enquanto paira o poder destruidor


de forças tambèm descomunais mas que sàò

afastam e separam o que se  chama mentira
 

Traição

daria toda uma vida para não provar

desse veneno amargo e assassino

poço de decepção quanto maior 

è o amor mais alto è a aranha 

céu do qual somos empurrados


saiba que não há fuga escapatória

desses ardidos caminhos cheios


de felicidade e bem frestas de desilusão

onde o amor  num minuto pode  em ódio


converter


 

Saudade

pela saudade dos teus braços sinto o calor

que faz  da paisagem o reflexo da magia

vejo as estrelas unidas num show  encantador

sinto vontade de correr em busca de mistério

mas fico aprisionado nos teus braços o frio

aprisiona - me nos teus braços no aconchego

do nosso mundo o meu calor se resume a ti

e o meu mistério torna nosso amor as flores

perfumam com a tua chegada e a magia são

parte deste momento


o vento traz lembranças e os pensamentos envolvem - se

na saudade o meu destino è esse calor que não chama mais


os teus braços 


apenas o meu coração è abraçado pela saudade dos teus braços

e dos beijos que nas noites frias aquecem as estações passam


e levam com elas os momentos inesquecíveis e deixam o tempo

misturado os seus quatro climas de saudade
 

Tempo

tempo de solidão e incertezas

tempo de medo e tempo 

de traição tempo de injustiça

e de vileza

tempo de negação tempo 

de covardia e tempo de ira

tempo de mascarada

 e de mentira  tempo

 de coniventes sem cadastro

tempo de escuridão tempo


de silêncio e de mordaça tempo onde o sangue

não tem rasto tempo de ameaças
 

Cantada de Paz

vemos ouvimos e lemos

não podemos ignorar

vemos ouvimos e lemos

relatórios da fome

o caminho da injustiça


a linguagem do terror

a invasão Russa a Ucrânia 

vergonha de todos nòs


reduzir a cinzas a carne das crianças

sobe a lamentação dos povos destruídos


nada pode apagar o concerto dos gritos

o nosso tempo è pecado organizado
 

Musa

aqui me sentei quieto com as mãos

sobre os joelhos quieto mudo secreto

passivo como os espelhos 

musa ensina - me o canto imanente

e latente eu quero ouvir devagar o teu

sùbito falar que me foge de repente
 

Destruição

exausto fujo às arenas

do puro intolerável

os deuses da destruição

sentaram - se ao meu lado

a cidade onde habito

è rica de desastres

embora exista a praia

lisa que sonhei
 

terça-feira, 17 de maio de 2022

Rosas

quando à noite desfolha e trinco

as rosas è como se prendesse entre

os dentes todo o luar das noites

transparentes todo o fulgor das tardes

luminosas o fogo bailarino da primavera

a doçura amarga dos poentes e a exaltação
 

Lusitânia

os que avançam de frente para o mar

e nele enterram como uma aguda faca

a proa negra dos seus barcos vivem

de pouco pão e luar
 

Jardim perdido

jardim em flor jardim impossessão  transbordante

de imagens mas informe em ti se dissolveu o mundo

enorme carregado de amor e solidão a verdura das

árvores ardia o vermelho das rosas transbordava

alucinado cada subia num túmulo em que tudo

germinava a luz trazia em si agitação de paraísos

deuses e de infernos em ti eram eternos de

 possibilidades  e suspensões mas cada gesto em

ti se quebrou denso um gesto mais profundo

em si contido pois trazia sempre outro jardim


possível
 

Escuto

escuto mas não sei se o que oiço

è silêncio ou deus

escuto sem saber se estou a ouvir

o ressoar das planícies do vazio

ou a consciência atenta que nos


confins do universo me decifra e fita

apenas sei que caminho como quem


è olhado amado e conhecido e por


isso em cada gesto ponho solenidade


e risco


 

Tu e eu devíamos simplesmente amar - nos

amor quantos caminhos para chegar a um beijo

que solidão errante atè chegar a ti !

os comboios continuam vazios a circular  com

a chuva em Taltal a primavera não chegou ainda

não amanheceu mas tu e eu meu amor estamos juntos


junto da roupa às raìzes juntos pelo Outono pela água

pensar que custou tantas pedras que o rio arrasta a

 embocadura da água do Boroa

pensar que separados por comboios e nações


tu e eu devíamos simplesmente amar - nos

com todos confundidos com homens e mulheres


com a terra que implanta e  educa os cravos
 

segunda-feira, 16 de maio de 2022

A noite na ilha

dormi contigo toda a noite junto 

ao mar na ilha

eras doce e selvagem entre o prazer

e o sono entre o fogo e a água

uniram - se talvez muito mais tarde


no alto ou no fundo em cima como ramos

que um mesmo veto agita como vermelhas


raìzes que se tocam


o teu sono separou - se talvez do meu

e andava à minha procura pelo mar


escuro como dantes quando sem te avistar


naveguei a teu lado e os teus olhos buscavam

o que agora pão vinho amor e cólera


dou - te as mãos cheias porque tu ès a taça que esperava

os dons da vida contigo toda a noite enquanto a terra escura


gira com os vivos e os mortos e ao acordar de repente no meio

da sombra o meu braço cingia a tua cintura nem o sono puderam


separar - nos


dormi contigo e ao acordar tua boca saída do sono trouxe - nos o sabor

do mar das algas do âmago da tua vida e recebi teu beijo molhado  pela


aurora como se me viesse do mar que nos cerca


eu não sofri meu amor esperava - te apenas tu precisavas de mudar

de coração e de olhar depois de tocares a profunda zona do mar que


meu peito te entregava precisavas de sair da água pura como uma

gota erguida por uma onda nocturna


minha noiva eu esperava - te não sofri a procurar - te sabia que virias

mas outra  com o que adoro da mulher que não adorava com teus olhos

tuas mãos e tua boca mas com outro coração que amanheceu a meu lado


como se sempre tivesse estado ali para continuar comigo para sempre
 

Prende o teu coração ao meu

de noite amada prende o teu coração ao meu

e que no sono eles dissipem as trevas como

 um duplo tambor combatendo no bosque


contra o espesso muro das folhas molhadas


nocturna travessia brasa negra do sono interceptando

o fio das uvas  terrestres com a pontualidade dum comboio


desvairado que sombra e pedras frias sem cessar arrastassem


por isso amor prende - me ao movimento puro à tenacidade

que em meu peito bate com a asa de um cisne submerso


para que as perguntas estreladas do céu responda o nosso

sono a única  chave com a única porta fechada pelo vento 


 

O teu riso

tira - me o pão se quiseres tira - me o ar

mas não me tires o teu sorriso

não me tires a rosa a flor de espiga que

desfia a água que de sùbito jorra na tua

alegria a repentina onda de prata que em 


ti nasce e regresso por vezes de olhos cansados

de terem visto a terra que nunca muda mas quando

o teu sorriso entra sobe o céu a minha procura e


 abre - se todas as portas da vida


meu amor na hora mais obscura desfia o teu riso

e se de sùbito vires o meu sangue manchar as pedras

da rua ri porque o teu riso será as minhas mãos como


uma espada fresca perto o mar no Outono  o teu riso

deve erguer a sua cascata de espuma e na primavera

amor quero o teu riso como a flor azul a rosa da minha


pátria sonora


ri - te da noite do dia da lua


ri - te das ruas curvas da ilha


ri - te deste rapaz desajeitado que te ama

mas quando abro os olhos e os fecho


quando os meus passos  se forem quando

os meus passos voltarem nega -me o pão

o ar a luz a primavera mas o teu riso nunca


porque sem ele morreria
 

Tenho fome da tua boca

tenho fome da tua boca da tua voz do teu cabelo

e ando pelas ruas sem comer calado não me

assusta o pão a aurora me desconcerta busco

no dia o som líquido dos teus pès estou faminto

do teu riso saltitante das tuas mãos cor de furioso


celeiro tenho fome da pálida pedra das tuas unhas

quero comer a tua pele como uma intacta amêndoa


quero comer o raio queimado na tua formosura

o nariz soberano do rosto altivo


quero comer a sombra fugaz das tuas pestanas

e faminto venho e vou farejando o crepúsculo


à tua procura
 

O teu riso

tira - me o pão se quiseres tira - me o ar

mas não me tires o teu sorriso

não me tires a rosa a flor de espiga

que desfias a água que sùbito jorra

na tua  alegria a repentina onda de prata


que em ti nasce


a minha luta è dura e regresso 

por vezes com os olhos cansados

de terem visto a terra que não muda


mas quando o teu sorriso entra sobe o céu

a minha procura e abre - se todas as portas

da vida


meu amor na hora mais obscura desfia o teu riso

e de sùbito  vires que o meu sangue mancha

as pedras da rua ri


porque o teu riso será para as minhas mãos

uma espada fresca


perto do mar no Outono o te riso deve erguer

a sua cascata de espuma e na primavera amor


quero ter o teu sorriso como a flor que eu esperava

a flor azul a rosa da minha pátria sonora


ri - te da noite do dia da lua ri - te deste rapaz desajeitado

que te ama


mas quando abro os olhos e os fecho

quando  meus passos se forem 


quando os meus passos voltarem


nega - me o pão o ar a luz a primavera

mas o teu sorriso nunca  porque sem ele


morreria



 

assim o amor

espantado meu olhar com teus cabelos

espantado meu olhar com teus cavalos

e grandes praias fluídas avenidas tarde

que oscilam demoradas e um confuso

rumor de obscuras vidas e o tempo


sentado no lumiar dos campos

com seu fuso sua faca e seus

novelos em vão busquei a eterna


luz
 

Terror de te amar

terror de te amar num sitio tão frágil como o mudo

mal de te amar neste lugar de imperfeição onde

tudo nos quebra e emudece onde tudo nos mente

e nos separa  que nenhuma estrela queime o teu perfil

que nenhum deus se lembre do teu nome


que nem o vento passe onde tu passas

para ti criei um dia puro livre como o vento 

e repetido como o florir das ondas ordenadas
 

Tempo

tempo de solidão e de incerteza

tempo de medo e tempo de traição

tempo de injustiça e de vileza

tempo de negação
 

Deus

senhor se da tua pura justiça

nascem monstros em mim

roda eu vejo 

è porque alguém te venceu

ou desviou


em não sei que penumbra os teus caminhos

foram talvez os anjos revoltados muito

tempo antes de eu vindo


já se tinha a tua obra dividido e em vão

busco a tua força antiga


ès sempre um deus  que nunca tem um rosto

por muito que eu te chame e te persiga
 

Deriva

vi as águas vi as ilhas e o longo baloiçar

 dos coqueirais vi alguns azuis como safiras

rápidas aves furtivos animais vi prodígios

espantos maravilhosos vi mulheres e homens

nuas a dançarem  nos areais  e ouvi o fundo

som das suas falas que nenhum de nòs entendeu

mas vi setas e vi lanças oiro tambèm à flor das

ondas finas e o diverso fulgor de outros metais

vi pérolas e conchas corais desertos fontes trémulas

campinas


vi o rosto de Eurdice  das neblinas vi o frescor

das coisas naturais sò do preste e de ti não vi

sinal as ordens que levava não cumpri e asim


contando tudo o que vi não sei se tudo errei

ou descobri
 

Cantada de paz

vemos ouvimos e lemos

não podem ignorar

vemos ouvimos e lemos

relatórios da  fome

o caminho da injustiça


a linguagem do terror

as bombas  Russas a bombardear

e a destruir cidades Ucranianas

vergonha de todos nòs reduzir a cinzas

a carne das crianças sob a lamentação

dos povos destruídos dos povos destroçados

nada pode apagar o concerto dos gritos

o nosso tempo è pecado organizado 


 

Musa

aqui me sentei quieto

com as mãos sobre os joelhos

quieto mudo secreto passivo

como os espelhos

musa

ensina - me o canto imanente

e latente 

eu quero ouvir devagar

o teu sùbito falar que me foge

de repente
 

Destruição

exausto fujo as arenas do puro intolerável

os deuses  de destruição sentaram - se ao meu lado

a cidade onde habito è rica de desastres embora

exista a praia lisa que sonhei 

 
 

domingo, 15 de maio de 2022

Amor Intenso

o nosso amor è intenso è imenso

amor instante o nosso amor è uma

arma è uma espera o nosso amor 

è um cavalo alucinante o nosso amor

è pássaro a voar mas a toa rasgando

o céu azul  coragem de rios e mar amor

partindo amor a doer o  nosso amor è como

a flor do aloendro deixa - me soltar estas palavras

amarradas para escrever com sangue o nome que inventei
 

Nudez

dispo - te despes - me despidos

vestimos - nos de amor


 in Joaquim Pessoa
 

Soneto da Separação

de repente do riso se fez o pranto silencioso

e branco como a bruma e das bocas unidas

fez - se espuma e das mãos espalmadas

fez - se o espanto de repente a calma fez - se

o vento que dos olhos desfez a última chama


e da paixão fez - se o pressentimento  e do momento

se fez o drama de repente não mais do que de repente

fez - se de triste o que fez - se  amante e sozinho o que


fez contente fez - se do amigo próximo o distante fez - se

da vida uma aventura errante de repente não mais que de repente
 

Poètica

com lágrimas do tempo e a cal do meu dia

eu fiz o cimento da minha poesia e na

perspectiva da vida futura ergui uma carne

viva sua arquitectura  não sei bem se è casa

se è torre ou se è templo ( um templo sem Deus )


as è grande e clara pertence ao seu tempo

entrai irmãos meus 
 

Livre Vertical

o pè fincando na espuma branca

na leve areia poalha nestes astros

que respiram o dia pelos troncos

árvores pelas pedras já voam devagar

os exactos pássaros devorando outros

grãos de sol trigo e areia

jà sabemos de cor  estas manhãs

tão altas e apenas meio - dia e já os passos

ressoam cravos altos pela sombra dos corpos

e dos olhos não há por  entre as ruas outras


ruas escrevo os versos em sangue disponível dos pássaros

que arremesso contra o espelho caminho livre e vertical

dobrando o infinitésimo equilíbrio das manhãs
 

Antero de Quental

não busco nesta vida glória ou fama

das turbas que me importa o vão ruído ?

hoje deus e amanhã já esquecido como

esquece o clarão de extinta chama

foco incerto que a luz já mal derrama


tal è essa ventura e acho perdido quanto

mais se chamou fico inerte e mudo

à voz que o chama dessa coroa e cada 

flor um engano è miragem em nuvem

ilusória è a mote vão de fabuloso arcano

mas coroa - me tu na fronte inglória

cinge - me tu o louro soberano verás então

se amo essa glória
 

Vento

o vento è este segredo que escreve

em cada manhã o nome dela na erva

numa folha numa pedra nos bagos

de uma romã acendo - te uma fogueira

nas tuas mãos acordadas dou - te flores

de laranjeiras dou - te ruas dou - te estradas

dou - te palavras secretas dou - te coragem 

e setas dou - te meus dedos crispados ponho

cravos amarelos a volta dos teus  cabelos

dou - te o meu sangue vermelho e o meu canto



proibido dou - te o meu nome raiz há muito tempo arrancada

dou - te esta calma guardada nos homens do meu país

dou - te a fome do meu canto dou - te os meus pulsos abertos

mas è por outro que vivo


Joaquim Pessoa in Poemas da Resistência

                1968 / 1971
 

Não te conheço

eu sei não te conheço mas existes

por isso os deuses não existem

a solidão não existe e apenas me dói

a tua ausência como uma fogueira

ou um grito não me perguntes como

mas ainda me lembro quando no Outono

cresceram no teu peito duas alegres laranjas


que eu apertei nas minhas mãos

e perfumaram depois a minha boca

eu sei não digas nada deixa - me

inventar - te


não è um sonho juro são apenas

as minhas mãos sobre a tua nudez

como uma sombra no deserto


è apenas este rio que me percorre

há  muito e desagua em ti


porque tu ès o mar que acolhe

os meus destroços è apenas


uma tristeza inadiável

uma outra maneira de habitar

em todas as palavras do meu canto


tenho de construir o teu nome

com todas as coisas tenho feito

amor de muitas maneiras docemente

lentamente desesperadamente à tua

procura


atè me dar conta que estás em mim

que è em mim que devo procurar - te


e tu apenas existes porque eu existo

e eu não estou sò contigo

mas è contigo que eu quero ficar sò

porque è a ti que eu amo
 

Obrigado


  obrigado excelências

obrigado por nos destruírem o sonho

e a oportunidade de vivermos felizes

e em paz

obrigado pelo exemplo que esforçam


por nos dar de como è possível viver sem vergonha e sem dignidade

obrigado  por nos roubarem por não nos perguntarem nada por não

nos darem explicações obrigado por se orgulharem de nos tirar as coisas

porque lutamos e as quais temos direito obrigado por nos tirarem atè o sono

e a tranquilidade e a alegria obrigado pelo cinzentismo pela depressão pelo

desespero obrigado por aquilo que podem e não querem fazer obrigado por

tudo o que não  sabem e fingem saber obrigado por transformarem o nosso

coração numa sala de espera obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias

um dia menos interessante que o anterior obrigado por nos exigirem mais do que

podemos dar obrigado por nos darem em troca quase nada obrigado por não 

disfarçarem a cobiça a corrupção a indignidade pelo chocante imerecimento

da vossa comodidade e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço e pelo

vosso vergonhoso descaramento obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca

devemos querer o que nunca deveremos fazer o que nunca deveremos aceitar

obrigado por serem o que são obrigado por serem como são para que não sejamos

tambèm assim e para que possamos reconhecer facilmente o que temos a rejeitar


in Joaquim Pessoa agradecimentos a corja



Metempsicose

    Antero de Quental

ausentes filhas do prazer dissei vosso  sonho

quais são depois da orgia ?

acaso nunca a imagem fugidia do que fostes

em vòs se agita e freme ?

noutra vida e outra esfera aonde geme outro

vento e se acende um outro dia que corpo tínheis ?


que matéria fria vossa alma incendiou

com fogo estreme ?

vòs fostes na floresta arrastando leoas

ou panteras de dentadas de amor um pouco

enxague mordes  pois esta carne palpitante

feras feitas de gaze flutuante ... lobas ! leoas !

sim bebei o meu sangue 
 

Poesia

poesia è  uma especial forma de expressão

género literário que inspira e encanta sublime

e belo

We love the tings we love for what they

are ( Robert Frost )


a poet is before anything else a person wo is passionately

in love with language ( W. H . Auden  )
 

Se è lei

se è lei que rege o escuro pensamento

ser vã toda a pesquisa da verdade

em vez da luz achar a escuridade

ser uma queda nova cada invento

è lei tambèm embora cru tormento

buscar sempre buscar a claridade

e ter como certa realidade o que mostra


claro o entendimento o que há de alma

escolher em tanto engano se uma hora crê

de fé logo duvida se procura sò acha ... o destino !


sò Deus pode acudir em tanto dano esperemos

a luz de uma outra vida seja a terra degredo o seu


destino


Antero de Quental
 

Resistir

dobrar na boca da espora calcar

o passo sobre o lume abrir o pão

a golpe de machado soltar pelo

flanco os cavalos do espanto

 fazer do corpo um barco e navegar

a pedra regressar devagar ao corpo

morno beber outro vinho pisado

por astros possuir o fogo ruivo

sobre a própria casa numa chama

de flecha  ao redor


Joaquim Pessoa in Paiol de Pólen 


 

de repente

do riso fez - se o pranto silencioso

e branco como a bruma e das bocas

unidas fez - se espuma e das mãos


espalmadas fez - se o vento

de repente da calma fez - se o vento

que dos olhos desfez a última chama


e da paixão fez - se o pressentimento

e do momento se fez o drama


de repente não mais do que de repente

fez - se de triste o que fez amante e sozinho

o que se fez contente fez - se do amigo próximo


o distante fez - se da vida uma aventura errante

de repente não mais  que de repente
 

lágrimas

com as lágrimas do tempo e a cal do meu dia

eu fiz o cimento da minha poesia e na perspectiva

da vida futura ergui uma carne viva sua arquitectura

não sei bem se è casa se è torre  se è templo

( um templo sem Deus )


mas grande e clara  pertence ao seu tempo

entrai irmãos meus

 

ensinaste - me

 

tu ensinaste - me a fazer uma casa

com mãos e os beijos

eu morei em ti e em ti meus versos

procuram voz e abrigo

e em ti guardei meu fogo meu desejo


construí a minha casa porém já não sei

das tuas mãos os teus lábios perderam - se

entre palavras duras e precisas


que tornaram a tua boca fria e a minha triste

como um cemitério de beijo

mas recordo a sede unindo nossas boca


mordendo o fruto das manhãs proibidas

quando as nossas mãos surgiam por trás

de tudo para saudar o vento


e vejo  o teu corpo perfumado a erva

e os teus cabelos soltando revoadas


de pássaros que agora se recolhem

quando a noite se move nesta casa

de versos onde guardo o teu nome

bastava - nos amar

bastava  - nos amar e não bastava o mar

e o corpo ? 

o corpo que se enleia ?

o vento como um barco a navegar

pelo mar por um rio ou uma veia


bastava - nos ficar e não bastava o mar

a querer doer em cada ideia

já não bastava olhar


urgente amar e ficar


fazemos uma teia

respirar 

a tua pele molhada de sereia


bastava sim encher o peito de ar

fazer amor contigo sobre a areia
 

sábado, 14 de maio de 2022

muros

porquê de tanto muro tão espantosa 

muralha a separar - nos

na vida na morte

onde eu estiver estarás comigo

e o resto não será mais
 

aurora

  levavas  em teu rastro uma aurora

de espigas em teus lábios as palavras

que não temem o fogo o frio ou a morte

a terra semeavas e por ama - la tanto

transforma - se  o amador na coisa amada

ès agora ò semeadora a própria semente oculta

e amorosa submersa no amor com ternura chegavas

e cada noite e construías uma vez mais a esperança 
 

voltaremos

voltaremos um dia meu amor

carregados de cinzas na aurora

corremos na relva na areia no 

orvalho

seremos a estrada a poeira


o girassol a seara o horizonte a linguagem

surda dos peixes crianças deslumbradas

despenteando  os cabelos do sol

viajando no silêncio abrindo as águas


e em nòs confundindo face e imagem

flor e frutos

crianças nuas meu amor carregando

nos braços da aurora carregavas em teus ombros

um navio de relâmpagos em teu coração a pedra

e a voz das cidades insubmissas


 

O amor

atenção lhe rouba quando ainda è o nada de repente explode em chamas e queima sugando - lhe ao centro do fogo cuja labareda  queima o espíri...